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Estudante de Teologia da FNB - Faculdade Nazarena do Brasil

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sábado, 27 de agosto de 2011

Resenha Crítica do Livro: O que é Religião? ( Rubens Alves)



Rubens Alves nasceu no dia 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, sul de Minas Gerais. É Bacharel e Mestre em Teologia, Doutor em Filosofia (Ph.D.) pelo Seminário Teológico de Princeton (EUA) e psicanalista. Lecionou no Instituto Presbiteriano Gammon, na cidade de Lavras, Minas Gerais, no Seminário Presbiteriano de Campinas, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro e na UNICAMP, onde recebeu o título de Professor Emérito. Tem um grande número de publicações, tais como crônicas, ensaios e contos, além de ser ele mesmo o tema de diversas teses, dissertações e monografias. Muitos de seus livros foram publicados em outros idiomas, como inglês, francês, italiano, espanhol, alemão e romeno.
Nesta obra o autor busca apontar caminhos, sejam ele filosóficos, antropológicos ou sociológicos para o que é religião. Inicia com um breve panorama histórico desde a época em que a religião constituía o cerne da vida particular e social, onde segundo o autor: “o universo físico se estruturava em torno do drama da alma humana”. No entanto, demonstra que no decorrer da história a ciência e a tecnologia avançaram, a situação mudou e a religião deixou de ocupar lugar central nas esferas do saber e da política. Levanta então a seguinte questão: poderiam os cientistas que defendem a rigorosidade do método científico, tirar conclusões acerca da religião sem ter tido antes a experiência religiosa?
A proposta do autor é que o estudo da religião não deva ser de forma isolada com grupos sociais restritos e separados, antes deve ser como um espelho em que nos vemos. O conhecimento e as atividades do homem moderno por mais privadas que estejam da linguagem religiosa, no fundo apresentam as mesmas perspectivas religiosas do passado.
Buscando interpretar a significação dos símbolos religiosos, fala dos animais e de como eles sobreviveram, da adaptação dos seus corpos ao ambiente, passa então ao homem, que não sobrevive, segundo ele, por meio de artifícios de adaptação física, pois ele cria a cultura e com ela as redes simbólicas da religião. A analogia situa-se em torno da seguinte pergunta: “Poderão os símbolos, entidades tão débeis e diáfanas, nascidas da imaginação, competir com a eficácia daquilo que é material e concreto?”
 O que esta em jogo é a busca pelo sentido da existência humana, por isso a religião, é o meio porque o homem através da imaginação, vai transformar sua realidade concreta em um universo simbólico que lhe traga sentido existencial. Os símbolos atendem a essa necessidade, tão poderosa quanto o sexo e fome: viver num mundo que faça sentido.
Retomando sua análise de como a religião foi relegada a segundo plano no transcurso da história, o autor demonstra como ocorreu o exílio do sagrado. Na Idade Média os símbolos haviam alcançado tamanha importância na vida dos homens, a ponto destes não mais os discernirem da realidade concreta, o que ocorrera fora um fusão entre a visão de mundo dos hebreus e cristãos com as dos gregos e romanos.
Deus era o tema central na vida social e particular, os símbolos tinham a solidez das montanhas, uma civilização construída sobre as teias da fantasia mantinha-se por séculos, mas os homens começaram a fazer coisas não previstas no receituário religioso, faziam parte de uma classe intermediária na estrutura social: a burguesia. Desta classe surgiu uma nova atividade econômica que corroeu as coisas e os símbolos do mundo medieval. Apresentava uma nova visão de mundo baseada na utilidade, que só reconhece o lucro.
A condenação do sagrado era exigida pelos interesses da burguesia, a religião representava o passado e a ciência , por sua vez, alinhava-se ao lado dos vitoriosos, por isso: a ciência era a verdade. A ciência exigia a submissão do pensamento, a rigorosa objetividade, a subordinação do pensamento ao dado, portanto, a religião passa a ser taxada de discurso desprovido de sentido e o passado medieval de Idade das Trevas.
Deus como dizia Rickert foi “confinado aos céus” e à religião foi dada somente a administração do mundo invisível, mas os homens ainda tinham alma e o sagrado sobreviveu como religião dos oprimidos. A cosmovisão do povo na Idade Média era enriquecida pelo significação que se dava as coisas, estudava-se o universo e as coisas buscando entender seu significado, no entanto, ressalta o autor: o avanço científico surge à partir do momento em que a ênfase é dada ao que as coisas são de fato.
Ao afirmar que o discurso religioso é desprovido de sentido, os empiristas ignoraram a religião como coisa social e se concentraram nos enunciados que aparecem junto a ela, cometendo assim um equívoco.Também erram aqueles que buscam julgar a religião como falsa, segundo Durkheim a religião é um fato, por isso os julgamentos de verdade e falsidade não podem ser a ela aplicados.
Alves demonstra que o universo inteiro, dividi-se em duas classes, encontramos assim o espaço das coisas sagradas e delas separadas por uma série de proibições, as coisas seculares ou profanas. Segundo o autor, sagrado e profano não são propriedades das coisas, mas se estabelecem pelas atitudes dos homens perante coisas, espaços, tempos, pessoas.
O profano é o círculo das coisas utilitárias, no mundo utilitário não existe coisa alguma permanente, em contraposição, uma das marcas do sagrado é a transgressão do critério de utilidade. O Sagrado é o criador, a origem da vida, a fonte da força e o homem é a criatura, em busca da vida, carente de força, entretanto, quando a secularização avança e o utilitarismo se impõe na sociedade, esta se estilhaça sob a pressão das forças do individualismo, por isso a religião é uma das condições para a sobrevivência da vida social.
A sociedade é o “Deus” que todas as religiões adoram, ainda que de forma oculta, escondida aos olhos dos fiéis, para estes pouco importa se suas idéias sejam corretas ou não, pois a essência da religião não é a idéia, é a força, o sagrado não é um círculo de saber, mas um círculo de poder. Para Durkheim a certeza de que a religião era o centro da sociedade era tão grande que ele não podia imaginar uma sociedade totalmente profana e secularizada, a religião pode se transformar mas nunca desaparecerá.
            No capítulo que traz o título de: “As Flores Sobre as Correntes”; observa-se uma rápida análise da visão de Karl Marx, seus ideais e pressupostos. Destaca-se a cosmovisão materialista de Marx, o rompimento com os símbolos do sagrado na construção de uma sociedade utópica, liberta da alienação da vontade própria no trabalho.
O papel da religião estaria em consolar os fracos e dar legitimações que consolidam os fortes. Para Marx a libertação da ilusão da religião dar-se-ia através da crítica. As circunstâncias da vida é que determinam a consciência religiosa e esta não pode ser tirada a força da mente humana, mas através da transformação da realidade, quando a sociedade se libertasse da alienação, então haveria a desconstrução do sentido da religião - o “ópio do povo” não existiria mais lugar para a ilusão.
No entanto, demonstra o autor, que o equívoco ocorre ao pensar que o sagrado é somente aquilo que ostenta os nomes religiosos tradicionais, como lembrava Durkhein as roupas simbólicas da religião se alteram e onde quer que imaginemos valores e acrescentemos ao real, aí está o discurso do desejo, justamente o lugar onde nascem os deuses, por isso, ao idealizar a sociedade, Marx deixa de lado os antigos símbolos sagrados, mas sua crítica a religião não termina com ela, simplesmente inicia um novo capítulo, como corretamente observa Albert Camus: “Marx foi o único que compreendeu que uma religião que não invoca a transcendência deveria se chamada política ...”
Da análise sociológica de Marx, o autor passa a  analisar em Voz do Desejo o que é religião sob a óptica de Freud e Feuerbach, numa análise que busca compreender como a religião se expressa na alma do homem. Para Freud a religião seria uma ilusão que representa os mais urgentes desejos da humanidade, da qual o homem se libertaria assim que alcançasse a maturidade; contrapondo-se ao negativismo de Freud está Feuerbach, para ele mais do que um sonho fadado ao fracasso: a religião é um sonho que contém a maior de todas as verdades: a verdade da essência humana.
Ao adentrar as profundezas da alma, o autor demonstra que a religião é muito mais do que um discurso desprovido de sentido ou uma ilusão. Vai além da análise sociológica, é mais que uma ilusão, deve-se entender quais são as razões que fazem com que os homens construam os mundos imaginários da religião.
Para encerrar seu esforço na busca para explicar o que é religião, Rubens Alves fala sobre O Deus dos Oprimidos, mostra-nos como o discurso religioso é expressado de maneira diferente entre as classes sociais, cita como exemplo das classes oprimidas o profeta hebreu, então faz a diferenciação entre oprimidos e opressores.
Propõe uma discussão, onde segundo seu ponto de vista a religião representa a força e o poder que está intrinsecamente ligada ao homem, por isso ela pode ser vista como subversiva uma vez que saia do campo da aceitação e adentre o caminho da mudança social, neste momento é que são produzidos os mártires, é quando a crítica se aguça de maneira contrária a religião. O autor questiona os parâmetros adotados pela ciência e indaga: “não haverá um dever de honestidade a nos obrigar a ouvir a religião, até agora silenciosa?”
Como definir melhor os caminhos percorridos pelo autor nesta obra do que nas suas próprias palavras:
A quem vou invocar como representante da religião? Você percebeu que, em cada capítulo, esforcei-me por assumir a identidade daquele em cujo nome falei. Tentei ser positivista, tentei ser Durkheim, falei como se fosse Marx, como  se fosse Freud e Feuerbach, procurei as visões dos mundos dos profetas. Estranha e maravilhosa capacidade, esta de brincar de "faz-de-conta".
Foi isso que Rubem A. Alves fez, abandonou certezas para ver como o mundo se configura na visão de outras pessoas. Ao fazer a apreciação de diversas personalidades e suas teorias acerca da religião, usou o método comparativo e histórico para propor induções que enriquecem o debate acerca do que é a religião.
Através do seu estilo ambivalente, o autor desenvolve a crítica aos diversos sistemas, desde o religioso, passando pelo político, ideológico, até a assepsia metodológica da ciência. Suas divagações tem um sentido que busca compreender a religião.
Uma das contribuições do autor esta em ampliar os horizontes, para que o leitor possa refletir acerca do significado da religião em diferentes contextos. O autor não específica uma religião, mas as trata de um forma genérica, ela não adentra o universo particular de cada uma delas, mas fala de suas generalidades.
Através do exercício da comparação, vai desenvolvendo o texto de maneira a propor a subjetividade humana em cada elucidação, por trás de ideologias há sempre uma realidade, um contexto histórico, uma diferença entre classes sociais, entre oprimidos e opressores.
O que fica implícito no que tange a religião é a idéia da não existência de verdades absolutas, nem entre religiosos, nem entre cientistas, por isso propõe uma abertura para um diálogo da ciência com a religião, que a ciência liberte-se de antigos paradigmas.
No entanto, é paradoxal que enquanto pastor e teólogo percorra caminhos tão relativos, mas compreensível enquanto estudioso do comportamento, sua análise introspectiva demonstra seu viés psicanalítico e sua atitude questionadora o exercício da filosofia.
 A obra é dirigida a todos que desejam entender a religião sob diferentes aspectos, sobretudo aqueles que estudam as religiões, independente se sob o prisma sociológico, teológico, antropológico, histórico, etc... A relevância está em expandir a visão além dos enfoques tradicionais.

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